quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Escrito em 2007

 Continuo sendo o que gosto...sendo pequenas coisas ou não. Mas como estamos em constante transformação... o tempo me faz ser coisas novas, me faz retomar o gosto pelas antigas, gostar mais ou menos das coisas de sempre.


Sou leão, sou elemento fogo com todas aquelas características que lemos nos horóscopos. Sou humor rápido e ironia, sou a face da Colombina. Sou ingenuidade e melancolia, sou a alma do Pierrot.  Sou Commedia Dellarte. Sou comédia, sou arte. Sou maquiagem, seja ela básica ou seja ela mágica. Sou textos reticentes, sou brincadeiras, sou palavras. Sou brincadeiras com palavras, sou criativa idade. Serei sempre letras, raramente números. Sou desenhos, rabiscos, sou lápis de cor. 


 


Sou ficar no meu quarto sozinha, sou conhecer vários lugares do mundo acompanhada. Sou céus azuis sem nuvens e céus absolutamente estrelados. Sou aquela brisa gelada da serra, sou casacos e cachecóis. Sou dias ensolarados no inverno, chocolate quente, lareiras e abraços. Aliás, sou abraços em qualquer estação. Sou sentar ao lado, encostar a cabeça no ombro e não dizer nada, sou fazer carinhos repentinos, sou sorrir só pra preencher o momento. Sou muito olho no olho. Sou transparecer o que sinto, sou sentir demais. Sou acreditar muito. Não sou um conto de fadas, mas sou um tanto quanto fantasiosa. Sou todos que me lêem, que me recitam, que me cifram e que me decifram. 


 


Je suis français à beça, Im english também, yo soy español, mas nem tanto assim. Hei de ser muitas outros idiomas. Sou a sutileza da comunicação em todas suas formas. Sou até mesmo linguagem de sinais, ainda que não entenda nada. Sou cores, sou flores. Sou tulipas, sou margaridas... mas se quiser me presentear, posso ser rosas também. Mas não as vermelhas...ah, essas não.


 


Sou música, seja pra dançar ou pra pensar. Na dúvida, sou sempre o som que arrepia, o que toca mais forte da alma e menos nos tímpanos. Sou sons, especialmente os naturais. Sou o som das praias, à noite ou durante o dia. Sou o som do vento leve nas árvores também.


 


Sou Theodoro, ou, o presente de Deus. Sou o que não tem início nem fim porque simplesmente sempre esteve ali, sempre existiu. Sou coração (reciclável), sou trevo (da sorte).


 


Sou 'sei lá', sou 'enfim'...

 Os contos não acontecem individualmente. Eles estão sempre conectados a outros, se entrelaçam, se alinham, desalinham, ficam por um fio, perdem o fio da meada. Atam nós. 

Esse, não haveria de ser diferente. Nem se sabe ao certo quando encaixar o "era uma vez", já que esse conto tem a dádiva de ser continuamente escrito. Sem rascunhos. Quando começa? Depende de como você vê!


As vezes vilã, tantas outras princesa... guerreira, lutando pelo seu protagonismo. Das que trava batalhas, desbrava cavernas amaldiçoadas por fantasmas

e demônios, encara tempestades. Das que salva o príncipe, e o chama pra próxima luta ao seu lado. Das que busca recarregar energias com os elementos da natureza, com a luz da lua. Das que dança na floresta, um tanto encantada, embalada pelo vento, ao sentir a felicidade de ser ela mesma, de ser espírito livre. 

Uma numa multidão de personagens, uma multidão de personagens em uma só. 

Urso e loba IA

 Na vasta e densa Floresta de Eldertree, onde os sussurros das folhas e o canto dos pássaros ecoavam como uma sinfonia antiga, viviam duas criaturas de destinos entrelaçados. Um urso imenso e uma loba ágil percorriam seus caminhos separados, mas suas vidas se entrelaçariam de maneiras que só o destino poderia tecer.


O Urso, conhecido como Brumo, era um ser imponente com pelagem castanha e olhos profundos como a terra. Desde filhote, enfrentou os desafios da floresta com uma determinação quase heróica. Cada inverno lhe trouxe a necessidade de acumular mais alimento, cada verão foi um teste de resistência e força. Brumo carregava as cicatrizes de batalhas passadas, marcas de garras e dentes que falavam das lutas pela sobrevivência. A cada estação, seu corpo se tornava mais forte, mas sua alma também se carregava de um peso invisível, resultado das constantes provas da vida selvagem.


A Loba, chamada Sombra, era uma criatura de movimentos graciosos e olhos cintilantes como a lua. Desde pequena, aprendeu a arte da caçada e a agilidade de um predador. Em sua juventude, era frequentemente desafiada por outros membros da alcateia e pelas duras condições da floresta. Suas patas tinham cicatrizes dos espinhos e das lutas, e suas orelhas exibiam marcas das brigas por território. Sombra, porém, não era apenas um predador; era uma estrategista nata, movendo-se como uma sombra, observando e aprendendo os segredos da floresta.


Por muitos anos, Brumo e Sombra seguiam suas jornadas sem nunca se encontrarem. A floresta era vasta, e seus caminhos raramente se cruzavam. Brumo vagava pelas montanhas e rios, enquanto Sombra percorria os vales e bosques. Ambos enfrentavam tempestades, caçavam suas presas e procuravam abrigo contra os predadores. A solidão era uma constante em suas vidas, e cada um carregava o peso de suas responsabilidades e esperanças.


Mas o destino, em sua sabedoria, estava prestes a mudar suas trajetórias. Em um inverno particularmente rigoroso, Brumo enfrentou uma tempestade feroz. A neve caía pesada, cobrindo a floresta em um manto branco e gelado. Em sua busca por abrigo, Brumo se viu perdido e fraco, seus passos pesados e suas forças diminuídas pela fome e pelo frio.


Na mesma noite, Sombra, em busca de alimento, se viu guiada por um instinto inesperado. Sentiu a presença de um ser grande e ferido. Seguindo o chamado de sua curiosidade e da necessidade de auxílio, a loba encontrou Brumo, exausto e enfraquecido, em uma caverna coberta de neve.


A princípio, Brumo rosnou, suas garras prontas para defender-se. Sombra hesitou, mas então viu nos olhos do urso um cansaço e uma vulnerabilidade que ela conhecia bem. Em um ato de coragem, Sombra se aproximou com cautela, levando comida que havia caçado. O gesto era pequeno, mas suficiente para começar a construir um vínculo.


Com o tempo, a presença de Sombra tornou-se um bálsamo para Brumo. A loba, apesar de seu tamanho menor, oferecia ao urso a esperança e a companhia que ele precisava para se recuperar. Em troca, Brumo usava sua força para proteger Sombra de qualquer ameaça, sendo um guardião silencioso para a pequena predadora.


Juntos, eles enfrentaram o inverno. Sombra mostrou a Brumo os caminhos escondidos na neve e como encontrar alimentos em meio ao gelo. Brumo, por sua vez, usava sua força para manter o abrigo seguro e para garantir que ambos estivessem aquecidos e seguros. Através dessas experiências, uma profunda amizade se formou, um vínculo forjado pela necessidade e pela reciprocidade.


À medida que a primavera chegou, Brumo e Sombra começaram a explorar a floresta juntos. Seus caminhos, antes solitários, agora se entrelaçavam, e eles se tornaram uma força combinada, enfrentando perigos e desafios com uma nova esperança. Cada desafio que superavam juntos lhes deixava marcas, mas também fortalecia o vínculo entre eles.


Em um momento de introspecção, enquanto observavam o sol se pôr sobre a floresta, Brumo e Sombra se deram conta de algo profundo: eles eram a força motriz um para o outro. A solidão de Brumo e a astúcia de Sombra se equilibravam, suas habilidades e fraquezas se completavam. O urso e a loba haviam aprendido que, mesmo nas maiores adversidades, o apoio mútuo poderia transformar a dor em força.


E assim, na grande Floresta de Eldertree, Brumo e Sombra continuaram suas jornadas, não mais como seres solitários, mas como companheiros inseparáveis, unidos pelo destino e pela experiência compartilhada. As cicatrizes que carregavam eram lembranças do passado, mas também eram testemunhas de uma amizade forjada na adversidade e na esperança.


No crepúsculo da floresta, eles caminhavam lado a lado, cada um com suas marcas e memórias, mas com a certeza de que suas vidas, apesar das durezas e dos obstáculos, haviam se encontrado para se tornarem mais fortes juntos.

 Vc é vc.

E vc é um pouco de td isso.

A gente vai montando nosso próprio quebra cabeças com as peças que descobrimos que nos definem num pedacinho, daí depois de um tempo já não te representa tanto e então mudamos. E de novo, e de novo.  Resgatamos peças guardadas num baú empoeirado. Encaixamos de novo. Ou descartamos. Outras vezes alguém te subtrai uma peça que vc achava essencial e fica um buraco imenso, até vc conseguir por si só ou seguir assim, reparando que entra luz por essa brecha, ou por completar com outras peças... Dado momento você que doa umas ou mais pecinhas pra preencher mais o quebra cabeças de pessoas ao seu redor... E te é retribuído de forma equivalente. Talvez mais. No final das contas, o quebra cabeças tá sempre em movimento. Nunca completo, mas tb nunca vazio. 

Vento

 Ah, o vento... esse danado que não se deixa prender por nada, nem mesmo pelos laços invisíveis da gravidade. 


É incrível como ele sabe ser sopro suave, acariciando gentilmente o rosto e fazendo as folhas das árvores sussurrarem segredos das matas... Traz consigo os aromas da terra molhada depois da chuva, faz dançar os tímidos flocos de neve recém criados na montanha austera.


Mas não se engane, esse espírito livre também tem seus momentos de rebeldia. Às vezes, ele vem com força, desalinha cabelos, desafia guarda-chuvas e faz as janelas baterem como tambores em um concerto desordenado. É como se dissesse ao mundo: "Eu estou aqui, não me ignore!"


O mais curioso é como o vento é capaz de transportar também palavras. Sim, palavras perdidas que alguém deixou escapar numa tarde de outono em uma casinha no meio da floresta, ou durante uma conversa despretensiosa no coração de uma metrópole. Ele as carrega consigo, levando para onde bem entender, como mensageiro de histórias não contadas e segredos não revelados. Ele ecoa memórias, conduz nossos desejos mais profundos para lugares distantes, como mensagens em garrafas lançadas ao mar.


Imagina se o vento tivesse memória... Seria como um velho sábio que guarda cada murmúrio sussurrado ao seu ouvido. Ele não só sentiria o presente, mas carregaria consigo o tempo, como um cronista das eras que já passaram, assim como também um impulsionador para o futuro, abrindo portas e janelas de oportunidades à nossa frente.


Sempre que o sinto, lembro de que ele é mais do que ar em movimento, que uma brisa passageira. É companheiro de jornada, um guardião das histórias do mundo, um poeta sem papel nem tinta, que escreve seus versos nos suspiros e nas ondas invisíveis do ar.